Três mulheres do concelho da Ribeira Grande, em Santo Antão, relataram hoje complicações de saúde após a administração da injecção de controlo contraceptivo no posto de Saúde Reprodutiva (PMI), referindo dores intensas, abcessos e falta de esclarecimentos.
Em declarações à Inforpress, Kátia Delgado afirmou que no dia 18 de Novembro se dirigiu ao PMI para tomar a sua habitual injecção de controlo, método que utiliza há cerca de um ano e seis meses, sem nunca ter registado problemas anteriores.
Segundo relatou, logo após a administração da injecção sentiu uma dor intensa no local, diferente das vezes anteriores.
“Embora a dor inicial tenha passado, alguns dias depois surgiu um caroço no local da injecção, que foi aumentando progressivamente até atingir, o tamanho de uma laranja”, descreveu.
Face ao agravamento das dores, Katia Delgado disse que procurou os serviços do hospital, onde foi medicada.
Conforme a mesma fonte posteriormente, o caroço começou a libertar pus e antes disso, referiu ter sentido fortes dores nas pernas, com perda de sensibilidade e dificuldade em movimentar a perna direita, chegando a não conseguir andar.
Kátia Delgado explicou que acabou por ser internada, tendo sido submetida a uma drenagem, curativos e tratamento com antibióticos, contudo, sublinhou que nunca lhe foi explicado o que esteve na origem da situação.
“Quero ter respostas sobre o que realmente aconteceu. O que passei não desejo a ninguém”, afirmou.
À semelhança de Kátia Delgado, Rosalina Delgado relatou que tomou a injecção de controlo no dia 28 de Outubro, sem apresentar sintomas imediatos, contudo, ao longo do mês de Novembro começou a sentir dores intensas no local da administração, evoluindo para dificuldades significativas na locomoção.
Segundo a mesma fonte, no início de Dezembro, com o agravamento das dores, procurou o PMI, onde foi aconselhada a aplicar água morna e sem melhorias e devido à intensidade da dor, decidiu procurar assistência médica.
“Fui medicada, mas o local acabou por drenar. Voltei ao hospital, onde foi realizada uma incisão para retirada de pus, colocada uma mecha e iniciado um processo de curativos diários durante cerca de uma semana”, explicou.
Rosalina Delgado afirmou que não recebeu uma explicação clara sobre a causa do problema, tendo apenas sido informada de que poderia estar relacionado com a injecção e disse ainda ter conhecimento de outros casos semelhantes, o que a deixou receosa de voltar a utilizar esse método contraceptivo.
“Passei por momentos muito difíceis e agora tenho medo de voltar a tomar a injecção”, desabafou.
Fátima Pinto foi igualmente afectada, relatou que tomou a injecção no dia 19 de Novembro e que, ainda nesse dia, começou a sentir dores.
Nisso, conforme a mesma fonte, contactou uma enfermeira do PMI, que a orientou a aplicar água morna e fria, o que aliviou a dor inicial, embora o caroço tenha permanecido.
Durante o período do Natal, Fátima Pinto disse que o quadro se agravou, com aumento da dor e endurecimento do local, impossibilitando-a de andar ou sentar-se.
No início do ano, recorreu ao banco de urgência, onde foi atendida, medicada com antibiótico e orientada a regressar após uma semana.
“Fui internada quando o caroço começou a libertar pus. Questionei os profissionais de saúde sobre o que estava a passar, mas não obtive qualquer explicação. Tive alta hospitalar sem esclarecimentos”, alegou.
“Actualmente já não sinto dor, mas o local continua duro. Vou levar o caso ao tribunal pelos transtornos causados e pela falta de respostas”, afirmou.
Contactada pela Inforpress, a delegada de Saúde da Ribeira Grande, Florentina Lima, explicou que as injecções em causa são de controlo de planeamento familiar, tratando-se de um contraceptivo hormonal injectável, o Depo-Provera, utilizado há muitos anos, sem registo anterior de reacções adversas naquele serviço.
Segundo a responsável, tendo em conta que, desta vez, algumas utentes deram entrada no banco de urgência com abcessos, e considerando que qualquer reacção adversa a medicamentos deve ser comunicada, o caso foi notificado à Entidade Reguladora Independente da Saúde (ERIS).
“A ERIS dispõe de um formulário próprio para este tipo de situações, que já foi devidamente preenchido e enviado, dando conhecimento das reacções registadas”, explicou, acrescentando que a entidade reguladora já terá conhecimento do caso e deverá investigar o que esteve na origem dos abcessos.
Florentina Lima esclareceu ainda que, à data dos acontecimentos, se encontrava de férias, mas que teve acesso a toda a informação relativa ao sucedido.
A mesma fonte sublinhou que qualquer medicamento pode provocar reacções adversas, uma vez que todos têm efeitos secundários, que podem manifestar-se de forma imediata ou tardia, embora afaste a hipótese de estar relacionada com a dosagem.
A delegada de Saúde referiu igualmente que foi identificado um caso semelhante no concelho do Porto Novo.
Segundo disse, foi feita uma averiguação a nível local, mas, estando a situação formalmente comunicada à ERIS, acredita que a entidade reguladora esteja já a trabalhar no apuramento das causas.
Fonte: Inforpress // Redação Tiver