O jornalista João do Rosário considera que o primeiro transplante renal realizado em Cabo Verde “um ganho para o país”, mas alerta para a necessidade da criação de uma estrutura sólida para acompanhar os pacientes pós-cirurgia.
Em declarações à Inforpress, João do Rosário, que vive há cerca de nove anos com um rim transplantado, sublinhou que o sucesso de um transplante não depende apenas da cirurgia, mas também de um sistema preparado para assegurar o seguimento clínico do doente.
Segundo explicou, antes de ser transplantado teve de lidar com as dificuldades da doença e com as limitações que ela impõe à vida pessoal, familiar e profissional.
Recordou que, quando começou a enfrentar problemas renais, teve de se deslocar para Portugal para realizar hemodiálise, um processo que, conforme afirmou, “afecta profundamente a qualidade de vida dos pacientes”.
Hoje, disse viver com qualidade de vida e considera ser prova de que “o transplante é uma oportunidade de renascimento”.
“O transplante é um grande passo para a saúde em Cabo Verde. É um ganho para todos os cabo-verdianos”, afirmou, acrescentando que muitos doentes vêem a sua vida condicionada pela necessidade de fazer hemodiálise várias vezes por semana.
Apesar de reconhecer o avanço representado pela realização do primeiro transplante renal no País, o jornalista salientou que o sucesso deste procedimento envolve várias etapas e exige uma estrutura bem organizada e uma equipa multidisciplinar devidamente preparada.
“Não é só fazer o transplante. É preciso ter uma equipa especializada e uma logística bem montada para acompanhar o doente”, afirmou.
Neste sentido, defendeu a necessidade de equipas médicas especializadas, integrando nefrologistas, cirurgiões, urologistas e outros profissionais capacitados para acompanhar todas as fases do processo, além de infra-estruturas adequadamente equipadas.
Segundo o jornalista, “o transplante não representa uma cura para a doença renal”, mas um procedimento que permite ao paciente passar a ter um rim funcional e deixar a hemodiálise, mas exige acompanhamento médico permanente ao longo de toda a vida.
“Transplante melhora muito a qualidade de vida, mas não significa que a pessoa esteja curada. É um tratamento que substitui a hemodiálise, mas exige acompanhamento constante”, explicou.
João do Rosário disse ainda que o sucesso do transplante não depende apenas da intervenção cirúrgica.
Revelou que, após a operação, o paciente passa por um período delicado de adaptação do organismo ao novo órgão, podendo ocorrer complicações, incluindo infecções hospitalares ou rejeição do rim transplantado.
Segundo explicou, os doentes transplantados precisam tomar medicação específica para reduzir as defesas do organismo, de modo a evitar que o corpo rejeite o novo órgão.
No entanto, este processo torna os pacientes mais vulneráveis a infecções e outras doenças, exigindo cuidados redobrados no dia-a-dia.
“Quando uma pessoa é transplantada, passa a viver com várias restrições. Tem de ter cuidado com a alimentação, com a qualidade da água que bebe e tomar a medicação de forma rigorosa. Caso contrário, corre o risco de rejeição do órgão”, explicou.
O jornalista salientou ainda que o tempo de vida de um transplantado pode variar de pessoa para pessoa, podendo o rim funcionar durante vários anos, dependendo de factores como o estilo de vida do paciente, o grau de compatibilidade do órgão e o acompanhamento médico.
Segundo referiu, há casos de pacientes que vivem décadas com um rim transplantado, enquanto outros podem enfrentar complicações poucos anos depois da cirurgia.
O jornalista defendeu ainda que Cabo Verde deve estruturar um sistema de doação e colheita de órgãos, semelhante ao que existe em Portugal, onde existe toda uma logística montada que permite identificar possíveis doadores e proceder à colheita de órgãos de forma organizada e regulamentada.
Conforme o jornalista, em Portugal as pessoas podem declarar antecipadamente se desejam ou não doar os seus órgãos, o que facilita o processo em situações como acidentes ou morte cerebral.
“Nesse sistema, quando ocorre um acidente e existe a possibilidade de doação, os órgãos podem ser retirados para salvar outras vidas, desde que a pessoa não tenha declarado previamente que não quer ser doadora”, explicou.
Por isso, considerou que Cabo Verde deve trabalhar na criação de um sistema semelhante, aliado à legislação já aprovada no parlamento sobre transplantes, de modo a garantir que o processo possa funcionar de forma segura e eficaz.
“Já foi dado o primeiro passo, agora é preciso preparar os passos seguintes para que todo o sistema funcione bem e os doentes possam ter qualidade de vida”, afirmou.
O jornalista sublinhou ainda que o desenvolvimento desta área exige investimento na formação de profissionais de saúde, aquisição de equipamentos e reforço da cooperação internacional.
João do Rosário destacou também a importância de continuar a sensibilizar a sociedade para a doença renal e para a necessidade de fortalecer o sistema nacional de saúde.
“O transplante não é apenas técnica médica, é também solidariedade. Sem dadores não há vida nova. Que este primeiro passo inspire confiança, mais doações e mais investimento em saúde”, concluiu.
Fonte: Inforpress // Redação Tiver