Um estudo sobre a mutilação genital feminina, em Cabo Verde concluiu que, até ao momento, não existem evidências que indiquem predisposição para a prática entre crianças de origem cabo-verdiana. O relatório alerta, no entanto, para a necessidade de vigilância num contexto de crescente diversidade cultural.
De acordo com Deisa Semedo, investigadora do Centro de Investigação em Género e Família (CIGEF) da Universidade de Cabo Verde, o estudo realizado não conseguiu determinar a prevalência da MGF em Cabo Verde devido a diversas limitações, nomeadamente o estigma associado ao tema, que dificulta a recolha de informações junto das comunidades.
“Infelizmente não foi possível fazer um estudo de prevalência, que é um estudo que nos pode dar um retrato mais completo e traçar um perfil da situação da MGF em Cabo Verde, devido às diversas barreiras que tivemos”, afirmou.
Perante este cenário, a equipa optou por um estudo de percepção, que permitiu identificar tendências e lacunas, sem, contudo, apontar para a existência da prática no território nacional.
O estudo foi realizado nas ilhas com maior concentração de comunidades imigrantes, nomeadamente Sal, Santiago, São Vicente e Boa Vista, e incluiu também visitas técnicas a Portugal, com o objectivo de compreender melhor a realidade e apoiar a metodologia da investigação.
O inquérito envolveu profissionais de saúde, sobreviventes, mulheres cabo-verdianas, imigrantes e companheiras de imigrantes, e permitiu identificar casos de mulheres submetidas à mutilação nos seus países de origem, sobretudo entre comunidades imigrantes residentes em Cabo Verde.
“Neste momento, em Cabo Verde, não temos evidências de que se trate de uma prática realizada no país. O que o estudo trouxe é que temos pessoas que são sobreviventes, meninas e mulheres sobreviventes da prática”, frisou.
Muitas vezes, explicou, a MGF é feita no país de origem, mas o impacto é vivido em Cabo Verde, tornando-se um problema para o país, já que, a partir do momento em que há sobreviventes dessa prática, o sistema nacional tem, obrigatoriamente, de saber dar resposta a essas situações, ao nível da saúde e no âmbito legal e educativo que pode estar subjacente à temática.
“De momento, também não temos evidências que nos indiquem que crianças de origem cabo-verdiana possam ter predisposição para a prática. No entanto, num mundo globalizado, nós fomos, durante muito tempo, um país de imigração; neste momento, somos um país de emigração, pelo que sabemos que há também toda uma diversidade cultural que se mistura”, alertou.
Como exemplo, citou que há cabo-verdianas cujos companheiros são de outros países de África onde essa prática existe.
Deisa Semedo explicou que a MGF é definida como qualquer procedimento que envolva a remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos sem indicação médica, sendo considerada uma violação dos direitos humanos e associada a múltiplas consequências físicas e psicológicas.
Neste contexto, iniciativas como o Curso Livre realizado em Mindelo para estudantes de enfermagem surgem como resposta à necessidade de formação e sensibilização, sobretudo entre profissionais de saúde e futuros técnicos.
O projecto que enquadra esta formação resulta de uma parceria entre a Alta Autoridade para a Imigração, o CIGEF e o Fundo de População das Nações Unidas, e tem como objectivo informar, sensibilizar e melhorar a intervenção junto das comunidades.
Fonte: Expresso das Ihas // Redação Tiver