ENTRE RAÍZES PROFUNDAS E FORNOS DE CARVÃO: A BATALHA CONTRA AS ESPÉCIES INVASORAS EM SA

A estrada de terra batida conduz ao coração de Tarafe de Mosquito, em Boca de Coruja, onde uma densa floresta envolve a paisagem e o silêncio é quebrado apenas pelo zumbido das motosserras e pelo estalar da madeira cortada.

Junto a um forno artesanal, quatro trabalhadores empilham troncos de “prosopis juliflora”, conhecida como “juliflora”, que dentro de poucos dias serão transformados em carvão.

À frente da pequena equipa está Edilano Dias, um jovem empreendedor que encontrou na remoção destas árvores uma oportunidade para criar o próprio emprego e, simultaneamente, contribuir para a recuperação ambiental de uma das zonas onde o Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas (MADRP) concentra maiores preocupações.

A poucos metros do forno, troncos cortados aguardam transporte, enquanto outras árvores permanecem de pé, dominando praticamente toda a paisagem.

À primeira vista, Tarafe de Mosquito parece apenas mais uma floresta da zona norte da ilha, no entanto, a maioria das árvores que cobre aquele vale pertence a uma espécie que deixou de ser encarada apenas como um recurso florestal para passar a representar um desafio ambiental.

Segundo o delegado do Ministério da Agricultura Desenvolvimento Rural e Pescas, na Ribeira Grande, Orlando Jesus Delgado, a “juliflora” integra um conjunto de espécies introduzidas em Santo Antão entre 1952 e 1984, período em que chegaram à ilha cerca de 222 espécies lenhosas destinadas à produção de lenha, protecção dos solos e recuperação florestal.

“Dessas espécies, cerca de 51 continuam hoje com alguma importância na ilha, sobretudo no Planalto Leste. Muitas cumpriram o objectivo para que foram introduzidas, mas algumas começaram a criar problemas ambientais”, explicou.

Originária da América Latina, a “juliflora” foi introduzida em Cabo Verde para responder às necessidades de reflorestação das zonas áridas, combater a erosão e fornecer lenha às populações.

Na década de 1960, a plantação concentrou-se sobretudo no concelho do Porto Novo, onde a espécie foi utilizada para arborizar bermas de estradas e criar zonas de sombra.

Segundo a mesma fonte, décadas depois, a realidade alterou-se profundamente, graças à facilidade de dispersão das sementes e à extraordinária capacidade de regeneração, a árvore expandiu-se para áreas onde nunca tinha sido plantada, ocupando vales, terrenos agrícolas e leitos de ribeiras.

“O problema não foi a sua introdução. O problema começou quando passou a reproduzir-se naturalmente e a ocupar locais onde nunca foi plantada”, explicou.

Actualmente, a espécie está presente em várias zonas da Ribeira Grande e do Paul, precisamente onde se localizam algumas das principais nascentes, galerias de captação, poços e furos utilizados na agricultura.

“É esta expansão silenciosa que preocupa os técnicos do ministério”, disse.

Com uma altura que pode atingir os 20 metros, troncos robustos e raízes capazes de ultrapassar os 20 metros de profundidade, a “juliflora” encontra nas linhas de água as condições ideais para crescer rapidamente.

“Estas árvores encontram aqui tudo aquilo de que precisam para se desenvolverem. O problema é que acabam por competir directamente pelos recursos hídricos e pelo espaço ocupado por espécies nativas”, advertiu.

Aquilo que durante décadas foi visto como uma solução para recuperar áreas degradadas transformou-se, com o passar dos anos, num dos principais desafios da gestão ambiental em Santo Antão.

“Hoje, o combate à “juliflora” já não é apenas uma questão florestal. Envolve a protecção dos recursos hídricos, da biodiversidade, da agricultura e até da segurança das populações que vivem junto às ribeiras”, explicou.

A expansão da “juliflora” tornou-se particularmente preocupante numa ilha onde a água continua a ser um dos recursos mais valiosos.

Em Santo Antão, grande parte da actividade agrícola depende da água captada em nascentes, galerias, poços e furos.

E é precisamente junto destas infra-estruturas que a espécie tem vindo a instalar-se, aproveitando a maior disponibilidade hídrica para se desenvolverem.

Segundo Orlando Jesus Delgado, há algumas décadas a “juliflora” praticamente não existia nos vales húmidos da Ribeira Grande e do Paul.

“Esta árvore encontrava-se, sobretudo, nas zonas áridas do Porto Novo. Hoje cresce junto das nascentes, dos poços, dos furos e das galerias de captação, precisamente onde se concentra uma parte importante da água utilizada na agricultura”, explicou.

A capacidade de adaptação da espécie é uma das razões da sua rápida expansão.

Com um sistema radicular que pode ultrapassar os 20 metros de profundidade e uma copa de grande dimensão, a árvore necessita de elevados volumes de água para garantir o seu crescimento.

Por essa razão, o delegado do Ministério da Agricultura Desenvolvimento Rural e Pescas compara o seu comportamento ao de uma autêntica “bomba natural”.

“Através da evapotranspiração, esta árvore retira grandes quantidades de água do lençol freático. Numa ilha onde a precipitação tem vindo a diminuir, esta pressão sobre os recursos hídricos torna-se cada vez mais preocupante”, alertou.

Na Ribeira Grande e no Paul, centenas de agricultores dependem diariamente da água proveniente das nascentes para irrigar culturas como a cana-de-açúcar, a banana, os produtos hortícolas e diversas árvores de fruto.

Embora a “juliflora” continue a desempenhar um papel importante na fixação dos solos das zonas áridas do Porto Novo, onde contribuiu para travar a erosão, o mesmo comportamento transforma-se num problema quando a espécie ocupa áreas húmidas destinadas à produção agrícola.

“O que é uma vantagem numa zona seca pode representar um problema onde a água é essencial para a agricultura”, resumiu.

A preocupação do ministério não se limita, contudo, aos recursos hídricos, à medida que a “juliflora” conquista novos espaços, reduz também as condições de sobrevivência de várias espécies nativas.

Um dos exemplos mais expressivos encontra-se precisamente em Tarafe de Mosquito, na zona de Boca de Coruja.

Ali cresce o “tarafe” (phoenix senegalensis), uma espécie autóctone protegida pela legislação cabo-verdiana e considerada um importante elemento da biodiversidade nacional.

Segundo Orlando Jesus Delgado, o próprio nome daquela localidade está associado à abundância desta planta que, durante décadas, encontrou naquele vale o seu habitat natural.

No entanto, a expansão da “juliflora” começou a alterar esse equilíbrio.

Mais alta, mais robusta e muito mais competitiva, a espécie invasora ocupa rapidamente o espaço disponível, reduzindo a entrada de luz e dificultando a regeneração natural do “tarafe”.

“Estamos perante uma espécie protegida por lei. Se queremos conservar a nossa biodiversidade, temos obrigatoriamente de controlar a expansão da “juliflora”, porque as duas espécies não conseguem coexistir nas mesmas condições”, explicou.

Para o delegado, a perda da biodiversidade vai muito além do desaparecimento de uma planta.

A substituição gradual da vegetação nativa altera todo o equilíbrio ecológico da zona, afectando igualmente insectos, aves e outras espécies que dependem daquele habitat para sobreviver.

Além da “juliflora”, outra espécie preocupa os técnicos do ministério.

Trata-se da “leucena”, igualmente considerada invasora e cuja expansão já motivou várias reclamações de agricultores devido à ocupação de terrenos agrícolas.

Segundo Orlando Jesus Delgado, o combate às espécies invasoras deixou de ser apenas uma questão de gestão florestal.

“Estamos a proteger a água, a agricultura e a biodiversidade. É um trabalho que exige continuidade, planeamento e o envolvimento das comunidades”, afirmou.

O responsável reconhece que a recuperação das áreas invadidas será um processo demorado, mas considera indispensável actuar antes que a expansão destas espécies provoque impactos ainda mais difíceis de reverter.

É precisamente essa estratégia que começa agora a ganhar expressão em Tarafe de Mosquito, onde a remoção das árvores invasoras já deixou de ser apenas um projecto do ministério para passar também às mãos de quem encontrou na floresta uma oportunidade de trabalho.

Enquanto o Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas defende a remoção gradual das espécies invasoras para proteger os recursos hídricos e a biodiversidade, em Tarafe de Mosquito essa estratégia já produz resultados através da iniciativa de um jovem empreendedor.

Entre troncos de “juliflora” cuidadosamente empilhados junto ao forno artesanal, Edilano Dias acompanha o trabalho desenvolvido por uma equipa de quatro trabalhadores que, diariamente, procede à limpeza de árvores invasoras naquela zona de Boca de Coruja.

Em 2020, Edilano mudou-se para São Vicente, onde teve a primeira oportunidade de trabalhar na produção de carvão, instalando um forno na zona de Ribeira de Vinha. Foi ali que adquiriu experiência numa actividade que viria a mudar a sua vida.

Cinco anos mais tarde, a passagem da tempestade Erin obrigou-o a interromper o projecto.

“As condições deixaram de existir para continuar a trabalhar em São Vicente. Decidi regressar à minha ilha e procurar uma nova oportunidade”, contou.

De volta a Santo Antão, começou a percorrer vários vales e ribeiras da Ribeira Grande à procura de matéria-prima.

Foi durante essas visitas que percebeu a dimensão da presença da “juliflora”.

“As ribeiras estavam cheias de árvores caídas e de acácias que precisavam de ser limpas. Vi que havia muita matéria-prima disponível e pensei que podia transformar aquele problema numa oportunidade de trabalho”, explicou.

Antes de iniciar a actividade, contactou o delegado do Ministério da Agricultura Desenvolvimento Rural e Pescas na Ribeira Grande que o orientou a solicitar a autorização necessária para a remoção das árvores.

Depois de concluídos os procedimentos legais, instalou o forno em Tarafe de Mosquito e iniciou a produção de carvão.

O projecto arrancou apenas com o próprio Edilano, mas hoje emprega mais quatro trabalhadores e prepara-se para reforçar a capacidade de produção com a instalação de um segundo forno, devido ao aumento da procura.

Segundo o empreendedor, são produzidos semanalmente mais de mil quilogramas de carvão, distribuídos por diferentes localidades de Santo Antão.

No entanto, a produção representa apenas uma parte do trabalho desenvolvido.

Grande parte do tempo é dedicada à limpeza das ribeiras, através da remoção de árvores derrubadas, do aproveitamento de troncos caídos e da poda de exemplares que, pela sua dimensão ou localização, dificultam a circulação da água.

Em Tarafe de Mosquito, explica, a maior parte das árvores caídas já foi retirada.

Concluída essa fase, os trabalhos prosseguem com a poda controlada de outras árvores autorizadas, reduzindo gradualmente a densidade da vegetação invasora.

“O objectivo é aproveitar a madeira que já existe no terreno. Limpamos as ribeiras, retiramos árvores caídas e transformamos essa madeira em carvão, evitando que fique abandonada”, afirmou.

Para Edilano Dias, os benefícios deste trabalho vão além da actividade económica.

Segundo explicou, durante a época das chuvas muitas árvores permanecem tombadas nos leitos das ribeiras, dificultando o escoamento natural da água e aumentando o risco de acumulação de troncos e ramos.

“Se as ribeiras estiverem limpas, a água circula com maior facilidade e diminuem alguns dos problemas provocados pelas enxurradas”, sustentou.

Sem se considerar especialista em ambiente, reconhece que o projecto acabou por assumir uma importância que inicialmente não previa.

Aquilo que começou como uma forma de garantir o sustento da família transformou-se também num contributo para a gestão da floresta, para a limpeza das ribeiras e para o aproveitamento sustentável de uma espécie que continua a expandir-se em várias zonas de Santo Antão.

Para Orlando Jesus Delgado, iniciativas como esta demonstram que o combate às espécies invasoras pode ser conciliado com a criação de rendimento e emprego.

“O importante é que a remoção destas árvores seja feita de forma controlada, mediante autorização, permitindo proteger os recursos naturais e, ao mesmo tempo, valorizar economicamente a biomassa resultante desse trabalho”, defendeu.

A experiência de Tarafe de Mosquito mostra que uma árvore considerada invasora pode também representar uma oportunidade para reduzir a pressão sobre as florestas nativas, criar postos de trabalho e contribuir para uma gestão mais sustentável dos recursos naturais da ilha.

Além dos impactos na agricultura e na biodiversidade, a expansão da “juliflora” representa outro desafio para as autoridades: a segurança das populações.

Em vários troços da Ribeira Grande, as árvores cresceram no leito das ribeiras ou nas suas margens, aumentando o risco durante os períodos de chuvas intensas.

Segundo Orlando Jesus Delgado, numa eventual cheia, a força da água poderá arrancar árvores inteiras, incluindo as raízes, arrastando-as ao longo da ribeira.

Caso esses troncos fiquem retidos nas pontes ou noutras infra-estruturas, poderão impedir o normal escoamento da água, aumentando o risco de transbordo.

“Na Ribeira Grande existem localidades muito próximas do leito da ribeira. Se uma cheia transportar estas árvores e elas bloquearem as pontes, a água poderá ultrapassar os muros de protecção e provocar danos materiais”, advertiu.

Perante este cenário, o Ministério da Agricultura Desenvolvimento Rural e Pescas pretende reforçar as acções de controlo das espécies invasoras, sobretudo, nas áreas consideradas prioritárias.

Entre as intervenções previstas estão a remoção de árvores junto das nascentes, galerias de captação, poços, furos e leitos das ribeiras, locais onde a presença da “juliflora” exerce maior pressão sobre os recursos hídricos.

Em determinadas zonas, explicou Orlando Jesus Delgado, será necessário recorrer ao arranque completo das árvores, incluindo o sistema radicular, utilizando maquinaria adequada para impedir a sua regeneração.

Noutras áreas, a estratégia passará pela gestão contínua da espécie através de cortes controlados e do aproveitamento da biomassa resultante.

“A madeira retirada não deve ser desperdiçada. Pode ser aproveitada para a produção de lenha ou carvão, reduzindo simultaneamente a pressão sobre as espécies nativas existentes nas zonas altas da ilha”, defendeu.

Segundo o responsável, esta abordagem permite conciliar a conservação ambiental com a valorização económica dos recursos florestais, envolvendo também as comunidades na gestão sustentável da floresta.

Para o delegado, controlar a expansão da “juliflora” será um trabalho contínuo, que exigirá planeamento, investimento e acompanhamento técnico, tendo em conta a capacidade de regeneração da espécie.

Fonte: Inforpress // Redação Tiver

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