SV: PROBLEMAS DE ACESSIBILIDADE E HABITAÇÕES PRECÁRIAS PERSISTEM UM ANO APÓS ERIN

Problemas de acessibilidade, drenagem de águas pluviais e habitações precárias persistem nas zonas altas de São Vicente, um ano após a passagem da tempestade Erin, com os moradores a alertarem para o risco de novas enxurradas atingirem a cidade.

Em declarações à Inforpress, vários moradores defenderam que a recuperação não deve limitar-se à reparação dos danos já registados.

Segundo eles, deve incluir intervenções preventivas nas encostas, melhoria dos acessos e criação de condições habitacionais para evitar que uma próxima chuva de intensidade elevada volte a transformar as zonas altas num ponto de origem de enxurradas com impacto na parte baixa da cidade.

Na zona de Alto Bomba, o presidente da Associação Alto Bomba Unido, Aldevino Fortes, reconheceu que algumas intervenções foram realizadas depois da tempestade, sobretudo nos pontos onde se registaram maiores estragos, mas considerou que os trabalhos ficaram incompletos.

“Depois de Erin teve melhorias, sim, inclusive onde se registou uma morte tiveram que fazer remodelações, rectificação da parede e concluíram o trabalho noutros lugares também onde a água causou estragos e ia em direcção às casas das pessoas”, afirmou.

Segundo Aldevino Fortes, apesar das obras realizadas, continuam a faltar intervenções de correcção torrencial, construção de muros de contenção e melhoria das acessibilidades, situação que, no seu entender, poderá agravar os riscos, caso São Vicente volte a ser atingido por uma tempestade.

O responsável explicou que, após a tempestade, técnicos da Câmara Municipal de São Vicente e do Ministério das Infraestruturas estiveram no local e apontaram para a necessidade de novas intervenções, nomeadamente na abertura de acessos e construção de paredes para contenção das águas, trabalhos que, segundo disse, não chegaram a ser executados.

“Faltam trabalhos a nível de correcção torrencial e a nível de acessibilidades porque, da forma que o trabalho ficou, se vier outra chuva criará consequências graves para outras casas. Desviaram a saída da água para outras casas e não concluíram o trabalho”, afirmou.

Na zona de Cruz de Papa, a moradora Fany Brito disse, por seu lado, que continua à espera de intervenções para melhorar os acessos e reparar habitações afectadas pela tempestade.

“No meu caso fiquei igual. Consegui fazer obras na frente, mas não consegui consertar uma pequena parede de suporte para a instalação que liga a minha casa à rede eléctrica. O acesso também está a mesma coisa”, relatou.

A moradora acrescentou que chegaram a ser iniciados trabalhos para a colocação de lancis, com vista à construção de calçadas, mas a intervenção foi interrompida.

“Fingiram que iam colocar calçadas para que as pessoas tivessem mais facilidade em chegar às suas casas, começaram a colocar os lancis, mas depois pararam os trabalhos”, afirmou.

Na zona de Fonte Mestre, em Chã de Alecrim, o cenário descrito pela moradora Sabina Dias é semelhante. Segundo contou, não foram realizadas intervenções significativas na zona, tendo os próprios moradores procurado soluções para melhorar as condições de acesso.

“Nós é que demos um jeito de fazer trabalhos para melhorar a acessibilidade. Eu vendo verduras e tenho uma irmã paraplégica, mas nem todos os carros conseguem chegar até à minha porta. Aqui não fizeram nada”, disse.

A moradora explicou ainda que a população teve de pagar pessoas para desobstruir as vias de acesso, uma vez que, sempre que chove, a estrada fica cortada.

“Enviaram várias máquinas, mas somente limparam as áreas planas e onde há estradas calcetadas. Mas nós que moramos mais acima não vimos máquinas por aqui a fazer trabalhos de desobstrução e correcção das vias de acesso”, adiantou.

A situação é igualmente apontada por Carla Monteiro, moradora de Debaixo de João Évora (Deboxe de Jon d´Ébra – em crioulo), uma das encostas da cidade caracterizada por assentamentos informais e dificuldades de acesso.

As queixas dos moradores abrangem também a permanência de habitações precárias, incluindo casas de lata, e a falta de obras estruturantes capazes de travar ou desviar as águas das chuvas antes que estas atinjam as zonas baixas da cidade.

Contactado pela Inforpress, o vereador de Protecção Civil da Câmara Municipal de São Vicente, José Carlos da Luz, afirmou que a autarquia tem estado a trabalhar na limpeza e desassoreamento dos diques e das bacias de retenção. Mas, sublinhou, “ainda há trabalho por fazer porque os estragos provocados pela tempestade tornaram impossível concluir todas as intervenções num ano”.

“Nós estamos a trabalhar na limpeza e desassoreamento dos diques. Já fizemos a limpeza das bacias de retenção desde Rotunda até Ribeirinha e vamos continuar a limpar os diques, a montante, para reduzir a velocidade das águas”, explicou.

O vereador reconheceu, contudo, que a intervenção nas zonas de risco exige a participação conjunta da câmara municipal e do Governo.

“Não só a câmara municipal consegue. O Governo entrou recentemente, de certeza está a estudar os dossiês e vamos encetar contactos institucionais com o novo Governo por forma a dotar São Vicente de melhores condições ambientais para responder a eventos climáticos extremos, que possam vir a existir”, afirmou.

Questionado sobre as intervenções previstas para zonas consideradas de alto risco, como Cruz de Papa, Debaixo de João de Évora e Alto Bomba, o vereador enquadrou estes espaços entre as chamadas “zonas altas, caracterizadas por áreas urbanas de génese ilegal.

“Temos de fazer um trabalho assertivo com as populações, um trabalho pedagógico no sentido de avisar as pessoas. Aliás, com a tempestade, penso que as pessoas ficaram consciencializadas quanto à situação das construções nas encostas, nos leitos das ribeiras”, afirmou.

Segundo José Carlos da Luz, a autarquia pretende avançar com um trabalho de requalificação urbana nestes bairros, contemplando muros de contenção, muros longitudinais, drenagem das águas pluviais e outras intervenções destinadas a reduzir os impactos das chuvas.

Quanto às casas de lata, o vereador afirmou que a câmara municipal tem procedido ao desmantelamento de algumas habitações precárias nos casos em que as famílias foram realojadas.

Admitiu, contudo, que o problema persiste devido ao “fluxo migratório interno para a cidade do Mindelo e às dificuldades económicas de muitas famílias para adquirir ou arrendar uma habitação”.

“É um problema que temos consciência disso e, juntamente com o Governo, temos de trabalhar nesse sentido agora. É uma situação que nós não podemos resolver de um dia para o outro”, reconheceu.

Sobre as críticas relativas à capacidade dos canais e das estruturas de correcção e escoamento das águas, incluindo na zona da Praça Estrela, José Carlos da Luz afirmou que as críticas são legítimas quando fundamentadas, mas afirmou que as infraestruturas foram projectadas tendo em conta determinados parâmetros.

O vereador sustentou que os fenómenos registados durante a passagem de Erin tiveram uma intensidade excepcional e considerou que a resposta às chuvas deve passar por intervenções contínuas de prevenção, limpeza, drenagem, contenção e requalificação das zonas altas.

Fonte: inforpress // Redação tIver

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