Milhares de famílias imigrantes procuram um recomeço em Cabo Verde, divididas entre o “boom turístico” do Sal e a capital, mas a adaptação escolar, as barreiras linguísticas e a crise habitacional testam a resiliência do modelo de integração.
Cabo Verde, historicamente uma nação de emigrantes, consolida-se cada vez mais como um país de acolhimento, contudo, as novas dinâmicas migratórias trazem à tona um contraste marcante entre histórias de sucesso profissional e obstáculos estruturais no acesso à habitação e à educação.
O ambiente nas salas de aula cabo-verdianas reflecte directamente esta transição, pois se a convivência intercultural enriquece o ambiente escolar, a barreira linguística e a burocracia documental surgem como os primeiros grandes entraves para as famílias recém-chegadas.
Nas escolas da capital ou nos estabelecimentos de ensino do Sal, muitas crianças oriundas da África Ocidental, como da Guiné-Bissau, Senegal ou Guiné-Conacri, ou da Europa e América Latina enfrentam um duplo desafio linguístico, o português, utilizado como língua de instrução formal, e o crioulo, omnipresente na interacção social e no recreio.
A falta de programas sistemáticos de português língua não materna e os processos morosos de equivalência de diplomas frequentemente colocam crianças em turmas desalinhadas com a sua idade cronológica.
“No início foi um choque para o meu filho. Na Guiné-Bissau ouvíamos a língua materna e o português, mas aqui o recreio é todo em crioulo. Ele voltava para casa calado, sem perceber o que os colegas diziam nas brincadeiras. Nas aulas, como a matéria é dada em português formal, ele até acompanhava o quadro, mas faltava-lhe a confiança para erguer a mão e participar. Só quando a professora teve a sensibilidade de aproximá-lo de um colega cabo-verdiano é que as coisas mudaram”, conta Aminata Djalo.
Entretanto, referiu com alegria, que hoje ele já mistura as línguas no dia a dia, mas o processo de equivalência dos papéis demorou, o que os deixara, muito apreensivos.
Se a integração escolar exige jogo de cintura, a procura por um tecto revela o lado mais duro da pressão económica.
Na Praia, a pressão imobiliária nos bairros centrais faz com que a população migrante se estabeleça em zonas periféricas, onde as redes de saneamento, água e electricidade ainda lutam para acompanhar o crescimento populacional, enquanto na ilha do Sal, o “boom” do turismo criou, também, uma escassez severa de habitação acessível.
Trabalhadores imigrantes da restauração, hotelaria e construção veem-se empurrados para bairros de expansão informal ou sublocações com rendas inflacionadas em relação aos salários locais.
Todavia, apesar das adversidades, a integração em Cabo Verde ostenta marcas de sucesso que distinguem o país no contexto regional, impulsionada pela actuação da Alta Autoridade para a Imigração (AAI) e pela tradicional receptividade da morabeza, que facilitam a criação de pequenos negócios e o envolvimento activo em associações comunitárias.
Nas ilhas da Boa Vista e de São Vicente, tal como na capital e no Sal, a presença de imigrantes na restauração, na arte e no comércio dá corpo a um ecossistema multicultural dinâmico e vital para a economia local, contudo, este panorama da integração desenha um quadro de fortes contrastes.
De um lado da balança figuram o acolhimento humano, a garra do empreendedorismo e o enriquecimento cultural visível nas salas de aula e nos bairros – do outro lado, pesam obstáculos persistentes, nomeadamente a especulação e a escassez habitacional no Sal e na Boa Vista e a dupla barreira linguística, constrangimentos que, na prática, adiam a transição plena da informalidade para o trabalho digno e o acesso à segurança social.
Perante os problemas reportados pelos imigrantes que chegam ao país, o presidente da Plataforma das Comunidades Africanas a nível nacional, José Viana, defende que o acolhimento humano precisa de ser acompanhado pela eficiência institucional.
“O nosso maior obstáculo hoje continua a ser a regularização documental, já que a morosidade na emissão e renovação dos Títulos de Residência empurra muitos trabalhadores qualificados para a informalidade, privando-os de direitos laborais e de protecção social”.
Segundo a mesma fonte, o futuro passa por desburocratizar os processos e criar políticas públicas de habitação inclusivas, especialmente em ilhas de forte pressão turística como o Sal e a Boa Vista”, concretizou, observando que a integração da nova vaga migratória não deve ser vista como um desafio assistencial, mas sim como um vector de desenvolvimento económico e demográfico para o país.
“Já temos progressos assinaláveis no acesso à saúde e na sensibilização comunitária, mas é preciso consolidar programas transversais de integração linguística e criar incentivos para a fixação formal de mão de obra. Se investirmos na capacitação e no habitar digno hoje, garantimos a coesão social de Cabo Verde nas próximas décadas”, sublinhou aquele responsável.
José Viana concluiu que o sucesso da integração em Cabo Verde dependerá da capacidade de transformar a acolhida afectiva em direitos cidadãos efectivos.
Fonte: Inforpress // Redação Tiver