Em Boa Entrada, Santa Catarina, a agricultura é herança, identidade e resistência, mas o avanço das pragas ameaça plantações, rendimentos e a esperança dos agricultores, colocando em risco o sustento de quem vive e resiste na terra local.
Entre mangueiras, pinhão, abacateiros e culturas hortícolas, os agricultores veem o esforço de meses desaparecer em poucos dias. A praga, que começou há anos a atacar os coqueiros, espalhou-se silenciosamente para outras culturas, ameaçando agora também hortaliças como cenoura, repolho e tomate, pilares da produção local.
Floresvindo Furtado, agricultor da zona, fala com a voz cansada de quem conhece cada palmo da ribeira.
“A gente continua a plantar, mesmo sabendo que pode perder tudo”, desabafou à Inforpress, explicando que, apesar das dificuldades, os agricultores têm apostado nas hortícolas como forma de garantir algum rendimento e driblar os prejuízos causados pelas pragas.
Segundo o mesmo, a falta de respostas eficazes por parte das entidades competentes levou os agricultores a perderem a confiança no apoio institucional.
“Já nem pedimos ajuda, porque não resolve”, afirmou, acrescentando que a ausência de uma intervenção rápida permitiu que a praga atingisse também culturas antes consideradas mais seguras.
Neste momento, o foco está nas cenouras, numa tentativa de compensar as perdas noutras culturas. Mas o medo persiste. Floresvindo recorda que a papaieira já desapareceu da localidade devido às pragas e receia que o mesmo destino venha a atingir as mangueiras, símbolos da paisagem agrícola de Boa Entrada.
A luta diária não se resume às pragas. A escassez de mão-de-obra, causada sobretudo pela emigração dos jovens em busca de melhores condições de vida, tornou-se outro grande obstáculo.
Para não deixar a terra ao abandono, os agricultores recorrem à entreajuda: hoje trabalham na parcela de um, amanhã na do outro, numa solidariedade silenciosa que mantém a produção viva.
Quanto à água, Floresvindo garante que existe disponibilidade, mas a falta de um reservatório obriga os agricultores a regarem de madrugada ou durante a noite, comprometendo a saúde e o descanso. “A terra não espera”, resume.
À sua voz junta-se a de Miquilina Fernandes, uma idosa, agricultora e moradora da localidade, que confessa sentir-se desanimada.
Entre o peso da idade e a falta de condições para combater as pragas, lamenta a ausência de apoio de quem deveria intervir. Ainda assim, reconhece melhorias, como a reabilitação da estrada e a construção do acesso ao fundo da ribeira de Caniço, defendendo que é preciso criar condições para o escoamento da produção de uma zona fértil e com potencial turístico.
O escoamento, aliás, tornou-se outro desafio. Com a diminuição do número de vendedeiras ambulantes em Assomada, os agricultores são obrigados a levar os produtos até à cidade da Praia para conseguir vender o excedente, aumentando custos e desgaste.
Gil António, também agricultor da zona, diz ter nascido e crescido naquela ribeira, onde aprendeu desde cedo a viver da terra. Hoje, além das pragas, enfrenta a presença de macacos e galinhas-do-mato, a falta de mão-de-obra e outros desafios que testam diariamente a resistência do homem do campo. “Mesmo assim, a gente não larga a terra”, afirmou.
Apesar das dificuldades, os agricultores de Boa Entrada mantêm a esperança de que acções concretas possam garantir a recuperação das plantações, assegurar a segurança alimentar e promover um desenvolvimento sustentável para a localidade e para outras comunidades agrícolas do município de Santa Catarina.
Fonte: Inforpress // Redação Tiver