SURTO DE ESQUISTOSSOMOSE EM SÃO MIGUEL: ESPECIALISTA CONFIRMA CASOS ASSINTOMÁTICOS NA CIDADE DA PRAIA

O cientista António Maximiano Fernandes, do grupo de investigação Bioanalítica, apela às pessoas que tenham visitado as zonas de São Miguel e Ribeira Principal e que tenham tido contacto com águas potencialmente contaminadas a dirigirem-se ao serviço de saúde mais próximo para avaliação médica. O apelo surge na sequência da identificação de vários casos de esquistossomose em pessoas que visitaram essas localidades, principalmente visitantes da Cidade da Praia.

O especialista avança que a contaminação foi identificada ao longo de cerca de um quilómetro de extensão, iniciando na área agrícola denominada Estância, passando pela zona da cachoeira e estendendo-se até um tanque conhecido como “Tanque Abaixo”, na localidade de Mato Dentro.

O alerta surge na sequência da identificação de vários casos de esquistossomose em visitantes destas localidades, principalmente na população da Cidade da Praia.

Em declarações ao A Nação Online, António Maximiano Fernandes afirmou que a maioria dos casos registados diz respeito a pessoas residentes na cidade da Praia, nomeadamente da zona de São Pedro, que se deslocaram às referidas localidades para visitar familiares.

Foram ainda identificados casos em visitantes provenientes de outras zonas do país.

“A investigação permitiu identificar, além dos casos sintomáticos, pessoas assintomáticas que testaram positivo para esquistossomose, embora apresentassem formas mais ligeiras da doença”, refere.

O investigador do grupo Bioanalítica admitiu, contudo, que é impossível estimar o número real de visitantes que possam ter sido infectados, uma vez que não existem dados sobre quantas pessoas passaram pelas áreas afetadas.

António Maximiano Fernandes acrescentou ainda que foram identificados casos em emigrantes cabo-verdianos, incluindo dois residentes em Portugal e um residente em França, sendo que em relação a este último, o diagnóstico foi feito apenas vários dias depois do aparecimento dos sintomas.

“Os médicos locais não suspeitavam de esquistossomose, o que atrasou o diagnóstico e provocou dias de grande angústia ao doente”, sublinha a mesma fonte.

O especialista alerta igualmente para os elevados custos associados ao diagnóstico destes casos, uma vez que muitos doentes tiveram de realizar exames complementares, como tomografias computadorizadas (TAC), antes de ser identificada a verdadeira causa da doença.

De acordo com os dados recolhidos até ao momento, a probabilidade de infecção após o contacto com águas das zonas contaminadas é considerada muito elevada.

“A probabilidade de uma pessoa ser infectada após contacto com as águas das zonas afectadas aproxima-se dos 100%, tendo em conta os dados obtidos até agora”, alerta António Maximiano Fernandes.

Até à data, foram confirmados casos em visitantes provenientes de diferentes localidades. Em 2025 foram encontrados três casos na cidade da Praia, dois emigrantes cabo-verdianos em Portugal e um emigrante cabo-verdiano em França. E em 2026 foi confirmado um caso no Tarrafal e na ilha de Maio.

Face à situação, o cientista deixa um apelo para que todas as pessoas que estiveram em contacto com águas das zonas afectadas procurem rapidamente assistência médica, mesmo que não apresentem sintomas.

“A infecção por Schistosoma haematobium pode provocar complicações graves a longo prazo, incluindo cancro das vias urinárias, inflamação do colo do útero, infertilidade e outras consequências para a saúde”, alerta.

Sendo uma doença parasitária, que pode ser encontrada em água de rios e lagos e que tem como hospedeiro intermediário o caramujo. Esse parasita pode penetrar na pele e provocar alguns sintomas nas pessoas.

Entre os sintomas apontados pelo investigador estão comichão e irritação na pele minutos após o contacto com a água contaminada. No entanto, os sinais mais graves podem surgir apenas meses depois.

“Mais tarde, algumas pessoas podem sentir dores ao urinar, embora existam casos em que não aparece nenhum sintoma”, explicou.

A descoberta do surto de esquistossomose está relacionada com outro surto identificado em São Miguel em Maio de 2022, causado também por schistosoma haematobium. Os primeiros alertas divulgados através das redes sociais levaram várias pessoas que estiveram na região a realizar testes confirmados como positivos.

“As autoridades locais chegaram a comunicar a descoberta desses casos, mas é preciso informar mais pessoas, sobretudo aquelas que tiveram contacto com aquela água”, defendeu o cientista António Maximiano Fernandes.

Desde o seu surgimento a 5 de Maio de 2022, o surto esquistossomose em São Miguel vem sendo abordado por vários meios de comunicação social e em diversas ocasiões, principalmente nos últimos meses, em que surgiram alertas sobre o aumento do número de casos e do seu alastramento para outros pontos do país e do estrangeiro.

A Nação online recorda que em Março deste ano (2026), foi realizado no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Miguel workshop sobre esquistossomose que contou com participação de técnicos e profissionais da saúde dos seis concelhos que compõem a região, técnicos e investigadores da área de saúde humana, ambiental e animal, e líderes comunitários

Na ocasião, o director da Região Sanitária Santiago Norte (RSSN), João Baptista Semedo, alertou para os riscos de a doença esquistossomose tornar-se endémica se as autoridades competentes não tomarem medidas.

“Se não fizermos algo, há riscos de esta doença nova se tornar endémica”, alertou, propondo “junção de esforços” entre as autoridades sanitárias, edilidade, pessoas ligadas ao ambiente e à educação e a própria população para se evitar que esta doença infecciosa se impregnar na sociedade.

Por outro lado, mais adiante, em Abril último, Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), em parceria com a Delegacia de Saúde de São Miguel, promoveu um encontro que contou com a presença da Diretora da Região Sanitária de Santiago Norte, Ludmila Miranda, profissionais de saúde, delegados e dirigentes municipais, bem como representantes de diversas entidades e organizações locais, nomeadamente, a Delegacia da Agricultura e Ambiente, a Câmara Municipal, a Polícia Municipal, a Cruz Vermelha, o agrupamento escolar e organizações da sociedade civil.

Entre os principais pontos abordados nesse encontro em São Miguel destacou-se a necessidade de intensificar as ações de sensibilização da população, tendo em conta que o surto está associado aos tanques utilizados pela comunidade. Crianças e adolescentes do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 4 e os 16 anos, que têm o hábito de banharem dos tanques, constituem o grupo com maior incidência, segundo os dados epidemiológicos apresentados até aquela data.

Nesse encontro, foram consideradas como áreas prioritárias de intervenção, as zonas de Cutelo Gomes, Aguadinha e Limão no Município de São Miguel. Até aquela data, vinha-se registando-se um aumento contínuo de casos, com um total acumulado estimado em 241.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que aproximadamente 90% das pessoas que precisam de tratamento para esquistossomose vivem no continente Africano. Em Cabo Verde até então, Maio de 2022, não havia relatos da doença.

A esquistossomose, também conhecida como ‘bilharzíase’ é uma doença parasitária causada por vermes do género esquistossomose, e, é uma das doenças tropicais negligenciadas mais comuns, afectando milhões de pessoas em regiões tropicais e subtropicais, especialmente em áreas com saneamento básico precário e contato frequente com água doce contaminada.

Fonte: A Nação // Redação Tiver

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