BISPO CESSANTE DE SANTIAGO FAZ BALANÇO POSITIVO DO SEU MINISTÉRIO 

O bispo cessante da Diocese de Santiago fez hoje um balanço “francamente positivo” do seu ministério episcopal, reconhecendo limitações, mas sublinhando o crescimento das dioceses por onde passou e o contributo dado à Igreja em Cabo Verde.

Em entrevista exclusiva à Inforpress, no momento em que deixa a liderança da Diocese de Santiago, Dom Arlindo Furtado afirmou que, apesar de “não ter cumprido cabalmente” a sua missão devido às limitações humanas, nunca lhe faltaram intenção, vontade e dedicação.

“Não faltou o desejo de ser útil e de contribuir para esta Igreja que é minha, da qual tanto recebi desde os 13 anos, quando entrei no seminário”, declarou o prelado.

O também primeiro cardeal cabo-verdiano considerou que o balanço do seu percurso é positivo, sublinhando o trabalho desenvolvido tanto na Diocese do Mindelo como na de Santiago, onde, segundo afirmou, foram organizadas estruturas, reactivadas iniciativas e lançados novos projectos pastorais.

Segundo a mesma fonte, as duas dioceses registaram crescimento ao longo dos anos, com destaque para a criação de novas paróquias na cidade da Praia, visando aproximar a Igreja dos fiéis e reforçar o dinamismo comunitário.

Questionado sobre se sente missão cumprida, respondeu: “Dei o meu contributo possível, limitado certamente, mas com muita boa vontade e muito amor”.

Ao recordar os momentos mais marcantes do seu percurso, Dom Arlindo Furtado destacou a entrada na Diocese do Mindelo, a ordenação do primeiro padre naquela diocese, a criação de novas paróquias, embora com muitas dificuldades então existentes, e a sua transferência para Santiago.

Entre os pontos altos, referiu ainda a sua nomeação como cardeal pelo falecido Papa Francisco, um momento que considerou “extremamente marcante” e que mobilizou toda a nação cabo-verdiana, bem como a sua participação num conclave, classificando-a como “a coroa” da sua caminhada eclesial.

Ainda hoje admite que a sua nomeação como cardeal o apanhou “completamente de surpresa”. 

“O Papa Francisco tinha essas características de surpreender muita gente, com coisas boas, naturalmente”, asseverou Arlindo Furtado, a propósito da sua nomeação como cardeal, reconhecendo que isto pôs a Igreja de Cabo Verde num patamar inusitado. 

Na sua perspectiva, a referida nomeação não só deu muita alegria à sua pessoa, mas, sobretudo, à nação e à Igreja de Cabo Verde.

“A felicidade, quando é partilhada, ela, no entanto, se multiplica e torna-se muito mais densa e, então, enche a alma e o coração e a vida”, afiançou Arlindo Furtado. 

A notícia da sua nomeação como cardeal apanhou-o na sua terra natal, Santa Catarina, onde estava a substituir o pároco que, na altura, se encontrava ausente do país.

“Foi entre as duas primeiras missas de manhã em que eu recebi a notícia e não quis acreditar”, revelou, acrescentando que pensava que se tratava de “brincadeira de mau gosto”.

Depois da confirmação da notícia veiculada por vários órgãos de comunicação social internacionais, o país, segundo o prelado, explodiu de alegria.

Recorda que a cerimónia da sua tomada de posse, em Roma, contou com a participação de muitas personalidades nacionais.

“E, também, gostaria de destacar o encontro com a diáspora, que se intensificou muito nos últimos anos, no contexto do decénio jubilar”, pontuou o bispo emérito, acrescentando que a preparação jubilar, tanto nos Estados Unidos como na Europa, em diversas ocasiões, foram momentos “extremamente marcantes”.

O responsável salientou igualmente a assinatura do acordo jurídico entre o Estado cabo-verdiano e a Igreja Católica como um marco importante nas relações institucionais. 

Apesar dos avanços, reconheceu que nem todos os projectos foram concretizados, apontando como exemplo a construção de uma casa de acolhimento para o clero, cuja execução foi dificultada pela falta de consenso interno.

“Não consegui fazer porque não foi fácil o consenso entre os cleros”, lamentou, acrescentando que apresentou três projectos, mas foi difícil conseguir a consensualização. 

Na falta de entendimento, avançou Dom Arlindo, registou-se um atraso muito grande no início das obras.

“Quando estávamos para iniciar mesmo, chegou o tempo da retirada, de entrar na reforma”, queixou-se o bispo emérito que, entretanto, acredita que se vai resolver este problema com a construção já em curso de um duplex no Seminário São José, na cidade da Praia. 

A construção deste imóvel, conforme revelou, vai resolver dois ou três casos de cleros reformados e, depois, vai continuar-se a pensar num edifício mais amplo.

Mencionou, a propósito, a experiência que conheceu em Coimbra (Portugal), em que três casas do clero foram construídas fora da cidade e não funcionaram porque os sacerdotes reformados, habituados a lidar com multidão, não acolheram a ideia e, por isso, foi construída uma nova casa perto do seminário.

“É bom que [a Casa do Clero] fique, se possível, perto de onde se começou”, afirmou Arlindo Furtado, referindo-se ao seminário por onde passam os jovens antes de serem ordenados padres.

Para ele, isso dá “outro tónico” à própria vida, além de permitir que a Casa do Clero funcione bem.

Relativamente ao futuro, revelou que irá residir no seminário, recusando permanecer no bispado, apesar do convite do sucessor, por considerar importante garantir liberdade total ao novo bispo no exercício das suas funções.

Sobre o papel da Igreja na sociedade cabo-verdiana, sublinhou a sua relevância histórica e actual, sobretudo na transmissão de valores às novas gerações, num contexto que considera “complexo e, muitas vezes, enganador”.

O cardeal destacou ainda os desafios da pastoral juvenil, reconhecendo algum afastamento dos jovens, mas apontando mudanças sociais, académicas e culturais como factores determinantes, defendendo uma abordagem mais dinâmica e adaptada às novas realidades.

Dom Arlindo Furtado concluiu manifestando gratidão pelo percurso realizado e confiança no futuro da Igreja em Cabo Verde, sublinhando a importância da continuidade do trabalho pastoral e da comunhão eclesial.

Dom Arlindo Furtado nasceu a 15 de Novembro de 1949, na localidade de Santa Catarina, na ilha de Santiago, Cabo Verde. 

Entrou no seminário aos 13 anos de idade e prosseguiu a sua formação sacerdotal em Cabo Verde e em Portugal, tendo sido ordenado sacerdote em 1976.

Ao longo do seu percurso, desempenhou várias funções pastorais e formativas, destacando-se como pároco, professor e reitor do Seminário Maior de São José, na Praia.

Foi também uma figura activa na formação do clero e na organização da Igreja em Cabo Verde.

Em 2009, foi nomeado primeiro bispo da Diocese de Mindelo, criada nesse mesmo ano, onde teve um papel fundamental na estruturação e consolidação da nova diocese. 

Em 2011, foi transferido para a Diocese de Santiago, tornando-se bispo da maior circunscrição eclesiástica do país.

Em 2015, foi elevado a cardeal pelo Papa Francisco, tornando-se o primeiro cabo-verdiano a integrar o Colégio Cardinalício e a participar na eleição de um Papa.

Ao longo do seu ministério, destacou-se pela proximidade aos fiéis, pela promoção de novas paróquias e pelo reforço da presença da Igreja na sociedade cabo-verdiana. 

Em 2026, cessou funções como bispo da Diocese de Santiago, deixando um legado marcado pelo crescimento pastoral e institucional da Igreja no país.

Fonte: Inforpress // Redação Tiver

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