Quase dois milhões de moçambicanos estão em risco de necessitar de assistência alimentar entre Dezembro e Janeiro, segundo relatório da FEWS NET, que aponta o conflito armado, efeitos das cheias e condições climáticas adversas como fatores de risco.
Na sua mais recente projeção, divulgada hoje, a Famine Early Warning Systems Network (FEWS NET) estima que entre 1,5 e 1,99 milhões de pessoas precisarão de apoio alimentar nesse período devido a reservas alimentares abaixo da média após uma fraca campanha agrícola de 2026 e às perturbações dos meios de subsistência causadas pela insurgência em partes das províncias de Cabo Delgado e Nampula.
A organização, uma rede internacional de alerta precoce para crises alimentares financiada pelo Governo dos Estados Unidos, responsável pela monitorização e projeção de situações de insegurança alimentar e fome em diversos países, identifica o norte e o sul de Moçambique como as áreas de maior preocupação.
Segundo a análise, apesar da atual época de colheitas, as zonas afectadas pela insurgência armada em Cabo Delgado e no norte de Nampula deverão manter-se em situação de “Crise” (IPC Fase 3) pelo menos até janeiro de 2027, devido à actividade continuada de grupos armados, deslocações populacionais e limitações no acesso a terras agrícolas, mercados e fontes de rendimento.
A FEWS NET recorda que, entre Abril e Junho, grupos armados intensificaram ataques nos distritos de Nangade e Macomia, expandindo posteriormente as operações para Chiúre, Ancuabe e Montepuez, distritos de Cabo Delgado.
Citando dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o relatório indica que mais de 23 mil pessoas foram deslocadas até meados de Junho nos distritos de Ancuabe, Montepuez e Chiúre.
No centro e sul do país, a organização prevê uma melhoria temporária na segurança alimentar a partir de julho, com a passagem de algumas áreas de “Crise” para “Stress” alimentar (IPC Fase 2), graças às colheitas da segunda época agrícola, à assistência pós-cheias e aos rendimentos sazonais. Ainda assim, alerta que parte desses distritos poderá regressar a uma situação de crise entre outubro e Janeiro, quando os alimentos produzidos se esgotarem e aumentar a dependência do mercado.
As cheias registadas em Janeiro afectaram mais de 700 mil pessoas e danificaram cerca de 440 mil hectares de terras agrícolas nas províncias de Maputo, Gaza e Sofala. Entre Fevereiro e Março, períodos prolongados de seca e novos episódios de chuva intensa agravaram os prejuízos nas culturas e no gado no país.
No relatório acrescenta-se que a recuperação agrícola permanece lenta devido à degradação dos solos, alagamentos prolongados e acesso limitado a sementes, factores que atrasaram em mais de um mês as plantações e colheitas da segunda época agrícola.
A FEWS NET alerta ainda que o fenómeno El Niño já está em curso e deverá manter-se pelo menos até janeiro de 2027, prevendo um início tardio e abaixo da média da próxima época chuvosa no sul e centro de Moçambique, além de temperaturas acima do normal, condições que poderão reduzir a produção agrícola e as oportunidades de trabalho sazonal para as famílias mais pobres, situação agravada pelo aumento dos preços dos alimentos.
Segundo a organização, os preços do milho no sul do país estavam em Maio entre 25% e 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto os preços do arroz se encontravam entre 20% e 40% acima da média. A inflação anual acelerou para 7,2% em Maio, o valor mais elevado desde Maio de 2023, impulsionada sobretudo pelo aumento dos preços dos combustíveis e dos transportes.
Em Maio, cerca de 180 mil pessoas receberam assistência alimentar humanitária, principalmente em Cabo Delgado e Gaza. Já as operações de resposta às cheias tinham alcançado aproximadamente 300 mil pessoas nas províncias de Maputo, Gaza e Sofala até meados de Junho.
Fonte: Lusa