EFEMÉRIDE/RINCÃO: A TRAGÉDIA DO METANOL QUE O TEMPO NÃO CONSEGUIU APAGAR

A comunidade piscatória de Rincão, em Santa Catarina, assinala os 40 anos da tragédia do metanol que, em Agosto de 1986, provocou oito mortos e dezenas de hospitalizações após a ingestão acidental do produto recolhido no mar.

O incidente começou, quando três pescadores da embarcação “Filomena” encontraram a cerca de uma milha da costa um bidão contendo um líquido que as pessoas julgaram ser aguardente, proveniente do navio “Ilha do Sal”, encalhado em Baixo Galhão, na ilha do Maio. 

O conteúdo foi levado para terra e distribuído. Cerca de 50 litros ficaram com o proprietário da embarcação e quantidade semelhante foi entregue aos marinheiros. O que se seguiu foi uma festa que rapidamente se transformou em drama.

Mais de três dezenas de pessoas ingeriram o líquido. Entre elas havia crianças. Poucas horas depois começaram a surgir os primeiros sinais de intoxicação e os casos mais graves foram encaminhados para o Hospital de Assomada.

O primeiro evacuado chegou por volta das cinco da tarde, já sem vida. Cerca de uma hora depois chegaram uma mulher de 70 anos e uma criança, ambas em coma. Morreram pouco depois.

No total, oito pessoas perderam a vida e cerca de 30 foram hospitalizadas. O líquido viria a ser identificado como álcool metílico, ou metanol.

No hospital, o médico Pierre Martell enfrentou uma verdadeira corrida contra o tempo. Médico cooperante colocado em Assomada, passou praticamente três noites sem dormir, atendendo as vítimas.

Em declarações ao repórter do então jornal Voz di Povo, o clínico explicou a gravidade da situação e as dificuldades enfrentadas pela equipa médica.

“Tudo fizemos para salvar essas vidas, mas não nos foi possível”, explicou, sublinhando que muitas das vítimas tinham ingerido uma quantidade elevada de metanol.

A determinada altura, depois de identificado o produto, uma solução aparentemente insólita passou a integrar o tratamento: vinho e outras bebidas alcoólicas.

A explicação era científica. O metanol, depois de ingerido, é transformado pelo organismo em substâncias altamente tóxicas. O álcool etílico podia interferir nesse processo, ocupando as enzimas responsáveis pela metabolização e diminuindo a transformação do metanol nos seus derivados mais perigosos.

A orientação médica acabou por salvar algumas vidas. Segundo relatos posteriores, pessoas que tinham ingerido grogue logo depois do líquido encontrado no mar conseguiram sobreviver.

À medida que os acontecimentos foram esclarecidos, começou a surgir uma pergunta incómoda: como foi possível que um produto tóxico e inflamável, transportado por um navio sinistrado, acabasse à deriva no mar e chegasse às mãos de uma comunidade?

O “Ilha do Sal” havia encalhado em Baixo Galhão. Durante as operações destinadas à recuperação da embarcação, os porões chegaram a ser abertos, alegadamente, com autorização da Empresa Nacional de Administração dos Portos, Enapor. A operação não teve êxito e os bidões não foram retirados.

Alguns desses recipientes acabaram por ficar à deriva.

O problema não era apenas o risco de intoxicação. Tratava-se também de uma carga tóxica e inflamável, capaz de representar perigo para outras embarcações, para o ambiente marinho e para as populações costeiras.

O caso levantou, assim, questões sobre a actuação das entidades responsáveis pelo navio, pela carga e pela segurança marítima.

Décadas depois, porém, permanece uma das perguntas centrais daquela tragédia: quem foi responsabilizado?

Hoje, a estrada de 17 quilómetros que liga Rincão a cidade de Assomada, é asfaltada, quando há 40 anos era de terra batida e de difícil acesso. A povoação cresceu, a frente marítima foi requalificada e a comunidade passou a dispor de melhores infra-estruturas.

Em Agosto de 2024, o então primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva e a Câmara Municipal de Santa Catarina inauguraram um monumento em memória das vítimas da tragédia do metanol de 1986.

Em 1986, o Voz di Povo levou a história aos leitores. Quatro décadas depois, os ecos daquela reportagem continuam presentes.

Rincão lembra os mortos. Os sobreviventes carregam as suas memórias. E a pergunta sobre as responsabilidades continua a atravessar gerações. Os familiares das vítimas nunca foram indemnizados.

Fonte: Inforpress // Redação Tiver

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