EXÉRCITO ISRAELITA ACUSA “NAZA” DE VISÃO INCOMPLETA DA SELEÇÃO DE ALVOS

As Forças de Defesa de Israel (FDI) acusaram hoje os autores do documentário “NAZA” sobre a morte de civis palestinianos em Gaza de apresentarem uma visão incompleta do processo de seleção de alvos.

Após um representante militar ter revisto o filme, o exército disse num comunicado que os entrevistados levantam “em vários casos especulações e suposições sem fundamento factual” sobre a atuação das FDI.

“O filme ‘NAZA’ apresenta uma imagem distorcida, enganosa e falsa do processo de planeamento e ataque das FDI”, considerou o exército no comunicado citado pela agência espanhola.

O exército israelita alegou que o filme de Yuval Abraham e Rachel Szor mostra apenas as etapas iniciais e não o “planeamento e aprovação de ataques”.

O documentário reúne depoimentos de 24 militares e agentes dos serviços de informações israelitas sobre as operações militares na Faixa de Gaza, e resulta de três anos de investigação jornalística.

Várias fontes de inteligência descrevem como Israel passou a autorizar, após ter sofrido os ataques de 07 de outubro de 2023, a morte de dezenas a centenas de civis como “dano colateral” de ações contra dirigentes do Hamas.

Grande parte do documentário baseia-se em investigações realizadas desde 2023 pelo jornalista israelita Yuval Abraham e publicadas tanto na revista israelo-palestiniana +972 como no jornal britânico The Guardian, que também produz “NAZA”.

O filme, vencedor do Prémio do Júri do Festival de Veneza, estreia-se hoje nos cinemas em Portugal e vai ficar disponível gratuitamente ‘online’ em novembro.

“NAZA”, de ‘nezek agavi’ (danos colaterais), é o acrónimo usado pelos militares para calcular o número de civis que podem morrer num ataque, com recurso à inteligência artificial (IA).

As FDI voltaram a negar no comunicado que durante a ofensiva em Gaza tenham autorizado matar até 500 pessoas para eliminar um alto responsável do Hamas, como alegou um dos entrevistados.

Nem um número “próximo dessa cifra”, assegurou o exército no comunicado.

O documentário descreve a prática israelita de bombardear habitações palestinianas, com famílias inteiras no interior, assim que o presumível membro do Hamas regressa a casa para dormir.

Também aborda o uso de modelos de IA que preveem a probabilidade de um habitante de Gaza ser ou não membro de milícias, criando uma lista de potenciais alvos.

A avaliação por IA é feita com base em padrões de chamadas telefónicas e tem uma margem de erro de 15%.

O exército israelita não menciona os bombardeamentos a habitações no comunicado.

Sobre a IA, alega que é usada como apoio no processo de seleção, mas que a autorização dos ataques cabe a pessoas e a diferentes níveis de comando.

Os militares entrevistados em “NAZA” asseguram igualmente que o exército bombardeou zonas sob ordens de evacuação sabendo que ainda permanecia ali população civil.

O exército israelita respondeu que as suas diretivas “não permitem que um aviso de evacuação para uma área seja considerado uma autorização para realizar ataques no local sem ter em conta os civis que lá permanecem”.

Os militares entrevistados no documentário falaram na condição de não serem identificados por recearem represálias.

O serviço de inteligência interna israelita abriu uma investigação contra os entrevistados.

A ofensiva em Gaza seguiu-se aos ataques terroristas liderados por milícias do grupo radical Hamas em Israel em 23 de outubro de 2023, que causaram cerca de 1.200 mortos e 250 reféns.

A resposta de Israel provocou mais de 73.000 mortos em Gaza, a destruição de grande parte das infraestruturas deste território da Palestina, uma crise humanitária e acusações de genocídio dos palestinianos contra Israel.

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