FOGO/ACIDENTE: JOSÉ GOMES LAMENTA PERDA DO IRMÃO QUE ERA SEU GUIA 

José Gomes, deficiente visual, de 23 anos, que perdeu o irmão no acidente de viação ocorrido no sábado, 05, na ilha do Fogo, recorda a relação de proximidade que mantinham, destacando o apoio que recebia dele como seu guia.

Estudante do 3.º ano do curso de Ciências da Comunicação, vertente de Jornalismo, na Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, José Gomes é irmão de uma das vítimas do acidente ocorrido na estrada entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, que provocou 25 mortos e 13 feridos.

O irmão tinha 16 anos e, segundo José Gomes, mantinham uma relação muito próxima.

“A relação entre mim e o meu irmão era muito forte. Éramos muito parecidos e, onde quer que eu fosse, éramos nós os dois. Sempre que lhe pedia para fazer qualquer coisa, fazia tudo sem problema”, contou.

Disse que, quando o irmão saiu de casa, encontrava-se a dormir. Mais tarde, soube que o jovem tinha inicialmente seguido para o passeio no ‘hiace’, mas acabou por regressar no autocarro que sofreu o acidente.

Recordou o momento em que recebeu a notícia: encontrava-se em casa, no quintal, juntamente com a mãe, enquanto o pai estava no exterior, quando ouviu choros e ficaram a saber que o irmão tinha sido vítima do acidente.

“O meu irmão ajudava-me muito em tudo”, afirmou, acrescentando que o jovem era também o seu guia e o acompanhava no percurso para a escola.

José Gomes explicou que, devido às dificuldades de mobilidade e acesso, o apoio do irmão foi determinante para que pudesse prosseguir os estudos.

Quando frequentava o ensino básico, avançou que o irmão o acompanhava-o até à estrada e, no regresso das aulas, esperava por ele para voltarem juntos para casa.

Recordou ainda que, depois de concluir o ensino secundário, ingressou na universidade, na cidade da Praia, onde enfrentou novas dificuldades por não conhecer a cidade.

Apesar dos obstáculos, José Gomes continuou os estudos e actualmente frequenta o curso de Ciências da Comunicação.

Depois de concluir o 12.º ano, começou a colaborar numa rádio, desempenhando funções técnicas e de animação, após o convite de uma professora, lembrando que o seu sonho inicial estava ligado à Matemática.

Ao recordar os momentos vividos com o irmão, destaca que este foi o último aniversário que passaram juntos.

“Íamos à igreja, à vila, à casa da minha avó, sempre eu e ele”, lembrou, emocionado.

Residente em Albarca, uma das comunidades mais afectadas pelo acidente, José Gomes disse que a família já recebeu visitas de psicólogos e espera que o acompanhamento continue, considerando que será necessário apoio para enfrentar a perda.

“Espero que nos ajudem, porque, no meu caso, perdi o meu irmão e primos, mas há outros que perderam o pai, a mãe e outros perderam filhos”, afirmou.

O jovem disse que a mãe e os restantes familiares estão profundamente abalados pela tragédia. “A minha mãe está triste e todos nós estamos em baixo”, lamentou.

José Gomes é beneficiário de uma bolsa de estudos da Fundação Cabo-verdiana de Acção Social Escolar (Ficase) e de acesso gratuito à escola.

“Estou triste, mas não há nada a fazer. Não sei como será daqui para a frente. Tenho mais dois irmãos, mas não será a mesma coisa”, concluiu.

Inforpress // Redação Tiver

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