JOVENS SUPERAM IDOSOS NOS RELATOS DE SOLIDÃO E ISOLAMENTO SOCIAL – SOCIÓLOGO

Relatos de solidão e isolamento social revelam que os jovens são agora mais afectados do que os idosos, um fenómeno, analisado pelo sociólogo Henrique Varela, impulsionado pela era digital, relações superficiais e ansiedade gerada pelas exigências modernas.

Historicamente associada às faixas etárias mais avançadas, a solidão afecta agora com maior frequência os jovens adultos do que as gerações mais velhas, segundo dados e relatórios internacionais que alertam para uma mudança estrutural no tecido social urbano.

A tendência de inversão demográfica no isolamento social é sustentada por diagnósticos recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de institutos de investigação social, que revelam que os jovens entre os 18 e os 29 anos reportam sentimentos de solidão com mais frequência do que os adultos com mais de 65 anos.

Também, especialistas em dinâmicas sociais apontam para uma ruptura com o padrão histórico à medida que a solidão, tradicionalmente associada à viuvez, ao isolamento físico ou à perda de autonomia na velhice, passa hoje a ser impulsionada pela precariedade nas relações de proximidade e pelas dinâmicas do ambiente digital.

Para o sociólogo Henrique Varela, a pressão das exigências contemporâneas desempenha um papel determinante nesta dinâmica afectiva, sublinhando que a sociedade moderna tem muitas exigências e os jovens estão com expectativas elevadas face às várias demandas, onde nem sempre a celeridade das respostas satisfaz a vontade.

“Isso provoca algum sentimento de ansiedade, medo e frustração, levando ao isolamento e à solidão”, analisa o sociólogo, alertando para o impacto da era digital e das exigências modernas na saúde mental e na sociabilidade dos jovens.

Ainda segundo os especialistas, a transição acelerada para o trabalho remoto, a dispersão geográfica das famílias para áreas periféricas e a substituição do convívio comunitário por interações mediadas por ecrãs são os principais factores que explicam esta vulnerabilidade entre os mais jovens.

De acordo com o relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS, a percepção de solidão na juventude não está associada à falta de contactos virtuais, mas sim à ausência de laços interpessoais significativos e de redes de apoio presencial.

No quotidiano, relatos de jovens que vivem entre o estudo e o trabalho em regime híbrido apontam frequentemente para esta disparidade. 

“É possível estar em contacto permanente com dezenas de pessoas em plataformas digitais e, ainda assim, passar semanas sem ter uma interacção presencial profunda. A rotina é rápida, mas as relações tornaram-se mais superficiais”, explicou um jovem universitário, que se encontra de férias em Cabo Verde. 

Henrique Varela reforça que a ilusão de hiperconexão compromete a essência das relações humanas, observando que o ser humano precisa sempre de manter o contacto físico presencial. 

“Querendo estar sintonizado em tempo real com o que acontece ao seu redor, o jovem acaba por cair no seu mundo individual, esquecendo a necessidade de manter aquela interacção social que traz a química com o outro, face to face”, sublinha o sociólogo.

O especialista alerta ainda para as consequências desse enclausuramento digital na perda de valores comunitários e na própria economia local. 

“O indivíduo acaba por pensar que pode interagir com o mundo a partir do seu quarto de forma isolada, perdendo o desejo de aprofundar valores como a solidariedade, a empatia e a fraternidade, o que dificulta a sociabilidade comunitária. Há também um impacto na economia, porque a pessoa passa a ter acesso, por exemplo, ao lazer através da tela em sua casa”, explica.

A inversão do perfil afectado está a levar organizações não-governamentais e serviços de saúde mental a reconfigurar as suas respostas no terreno, criando linhas de apoio dedicadas especificamente à população jovem e a estudantes deslocados.

Especialistas em saúde pública reforçam que a solidão precoce tem impactos directos a longo prazo, aumentando o risco de depressão, perturbações de ansiedade e complicações cardiovasculares, apelando ao planeamento de espaços urbanos que promovam a coesão comunitária.

Diante deste cenário, Henrique Varela defende que a solução exige uma mudança interna e atitudes proactivas. 

“Esta é uma questão que passa primeiro pela mentalidade do próprio indivíduo e por tomar atitudes rápidas que levem à mudança de comportamento. Assim como uma vírgula muda o sentido de uma frase, uma atitude positiva pode mudar a vida de um indivíduo, de uma comunidade e de uma sociedade”, conclui.

Fonte: Inforpress // Redação Tiver

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *