Os moradores do vale situado entre o Palmarejo Grande e a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), na cidade da Praia, conhecido como Vale do Palmarejo, reclamam de várias prestações, e com o aproximar da época das chuvas as suas preocupações aumentam. Afirmam que só são lembrados por altura das campanhas eleitorais.
Apesar da passagem dos anos, e não sendo esta a primeira vez que A NAÇÃO escreve sobre esta zona da cidade da Praia, os moradores do Vale do Palmarejo afirmam que o bairro continua a debater-se com vários problemas antigos, que são do conhecimento das autoridades.
Na sua lista de reclamações apontam estradas degradadas, falta de saneamento básico, ausência de água canalizada, insuficiência de infraestruturas e escassez de oportunidades para os jovens.
Nesta nova reportagem ao local, A NAÇÃO encontrou uma obra de estrada paralisada e trabalhos em curso para a instalação de tubagens da rede de abastecimento de água.
Segundo o morador António Ribeiro, que nasceu e cresceu nesta zona, essas obras tiveram início durante o período de uma dada campanha eleitoral, mas, mal esta terminou, encontram-se paralisadas. E, quanto à água canalizada, explicou que os trabalhos continuam, mas sem qualquer indicação sobre a data da sua conclusão.
Já Lenira Almeida lamenta que o Vale do Palmarejo continue a ser uma comunidade esquecida pelas autoridades. “Só se lembram de nós em tempo de campanha eleitoral para pedir votos. Depois das eleições, abandonam as obras e a população”, disse.
Da sua parte, a presidente da Associação para o Desenvolvimento Comunitário de Palmarejo Grande (ADCPG), Ana Paula, considera que a localidade registou progressos significativos nos últimos anos.
“Hoje temos electricidade nas casas e nas ruas. Dentro de poucos dias teremos água canalizada e a estrada começou finalmente a ganhar forma”, afirmou, reconhecendo, no entanto, que “ainda há muito trabalho por se fazer”.
Além da água canalizada e da melhoria das vias de acesso, os jovens com quem esta reportagem esteve à conversa defendem que o bairro necessita de espaços destinados ao lazer e à prática desportiva.
Helder Veiga considera que a comunidade precisa de um campo em condições e de uma praça para as crianças. “A nossa única diversão é o campo de terra improvisado. Queremos um espaço digno para praticar desporto e um local onde as crianças possam brincar em segurança”, apelou.
Na mesma linha, Leila Mendes afirma que o Vale do Palmarejo é um bairro com muitos jovens e que por isso precisa de mais oportunidades, tanto ao nível do lazer como de emprego.
A dirigente local, Ana Paula, reconhece essa necessidade, mas defende que, no que diz respeito à formação profissional, a associação tem procurado criar oportunidades para os jovens, embora nem todos as aproveitem. “Temos jovens que saíram deste bairro para Portugal e hoje estão inseridos no mercado de trabalho graças às formações promovidas pela associação”, garantiu.
A responsável acrescentou ainda que a ADCPG estabeleceu parcerias com escolas de condução para oferecer cartas de condução gratuitas a jovens da comunidade. “Oferecemos dez vagas, mas muitos acabaram por desistir a meio do processo, o que não é bom para ninguém”, lamentou
A chegada da época das chuvas, para quem vive no Vale do Palmarejo, é mais um motivo de preocupação. A estrada inacabada, a inexistência de um sistema de drenagem eficiente e as dificuldades de acesso fazem temer que as primeiras enxurradas agravem ainda mais as precárias condições de circulação no bairro.
Segundo Lenira Almeida, durante o período da chuva a situação da estrada se agrava ainda mais, dificultando o acesso tanto das pessoas como dos transportes. “Em dia normal a maioria dos táxis se recusam a entrar nesta zona e quando chove nem chegam perto, temos de atravessar as cheias e as lamas para conseguir um transporte”, lastima.
Os residentes do Vale do Palmarejo esperam por isso que as obras em curso sejam concluídas antes do início das chuvas, evitando os constrangimentos que, segundo dizem, se repetem todos os anos. Através desta reportagem, lembram que o bairro não deve ser visitado pelos políticos e responsáveis apenas em períodos de campanha eleitoral.
Moradores ouvidos por A NAÇÃO defenderam a substituição da presidente da Associação para o Desenvolvimento Comunitário de Palmarejo Grande, Ana Paula, alegando não se sentirem representados pela actual direcção.
Entre outros problemas e críticas, os entrevistados acusam a associação de favorecer familiares da presidente na distribuição de apoios e oportunidades de formação.
“Sempre que chegam bens alimentares ou vagas para formações, os primeiros escolhidos são os familiares da presidente. Se sobrar alguma coisa, temos de insistir muito para receber aquilo que é nosso por direito”, denunciou uma moradora.
Lenira Almeida afirmou que já foram realizadas várias tentativas para eleger uma nova direcção, sem sucesso. “Ela perdeu as eleições, mas continuou à frente da associação, mesmo sabendo que muitos moradores já não querem que ela os represente”, afirmou.
Em resposta, Ana Paula diz desconhecer a realização de qualquer processo eleitoral e garante estar disponível para deixar a presidência, desde que surja alguém disposto a assumir o cargo.
“Muitas pessoas pensam que recebo salário, mas o trabalho que faço é totalmente voluntário. Fui eu quem fundou esta associação e sempre trabalhei para melhorar a comunidade. Se aparecer alguém com vontade de dar continuidade ao trabalho, entrego o cargo com todo o gosto”, assegura.
Ana Paula desabafou ainda que, ao longo desses 22 anos, já realizou vários trabalhos em prol do desenvolvimento do Vale do Palmarejo e quem quiser que a avalie por aquilo que ela já fez em beneficio da comunidade.
Fonte: A Nação // Redação Tiver