PRESOS NO TARRAFAL EM 74-75 PEDEM RECONHECIMENTO POR DETENÇÕES “SEM RAZÃO”

Dois cabo-verdianos presos no Campo do Tarrafal entre 1974 e 1975 pediram reconhecimento pelo período de detenção, incluindo através de uma pensão, em declarações à Lusa, a par de familiares que querem ver honrada a memória de 58 encarcerados.

“Nunca ninguém me ouviu, não fomos a nenhum tribunal, fomos apenas presos, sem razão”, contou Orlando Araújo, detido em 1974, aos 24 anos, na ilha do Fogo, e posteriormente levado para o Campo do Tarrafal, em Santiago.

Orlando trabalhava como ajudante de motorista do Estado e, segundo contou, cerca de 25 pessoas foram detidas no Fogo por ligações à União dos Povos das Ilhas de Cabo Verde (UPICV), que defendia a independência do arquipélago, mas rejeitava a unidade política com a Guiné-Bissau.

As detenções ocorreram após a revolução de 25 de Abril de 1974, em Portugal, num período de transição marcado pela disputa entre diferentes forças políticas sobre o futuro de Cabo Verde.

O Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que liderava a luta anticolonial e defendia a unidade entre os dois territórios, tornou-se a principal força política no processo que conduziu à proclamação do novo Estado, a 05 de julho de 1975.

A UPICV e a União Democrática de Cabo Verde (UDC) defendiam a independência, mas rejeitavam a união com Bissau.

Orlando recordou que, neste contexto, ele e outros membros ou simpatizantes da UPICV foram detidos.

O antigo preso afirmou que a ordem partiu de um responsável que descreveu como juiz, administrador e chefe da polícia, de origem guineense e ligado à luta armada, entretanto falecido.

“Ele é que mandou prender-nos. Ele é o culpado”, afirmou à Lusa.

Os detidos foram inicialmente levados para a prisão do Fogo e depois para o Tarrafal, onde Orlando permaneceu cerca de oito meses.

Tinham alimentação e cama, mas não podiam sair do recinto, e não importou a ninguém a greve de fome de cerca de uma semana que fizeram.

“A resposta que deram: ‘tomara que morram'”, contou.

Orlando afirmou ainda que familiares dos detidos foram alvo de buscas por suspeitas de esconderem armas.

Na sua casa, relatou, “agentes remexeram em colchões e deitaram comida fora”, por suspeitarem que o armamento pudesse estar escondido entre os alimentos.

Em 05 de julho de 1975, alguns presos foram libertados, mas Orlando e outro detido permaneceram presos e acabaram transferidos para a cadeia de São Vicente.

Ali, afirmou, “as condições eram mais duras. Foi pior que o Tarrafal”, afirmou, dizendo não ter sido vítima de tortura física e estimando ter permanecido preso cerca de 16 meses.

Depois de libertado, ficou sem meios e só conseguiu regressar ao Fogo com ajuda de terceiros.

Aos 75 anos, Orlando pede reconhecimento pelo tempo que passou na prisão.

“Fui preso à toa, todo esse tempo, com a família a passar mal. Acho que deviam dar alguma pensão, algum reconhecimento”, afirmou, acrescentando que a história ainda enfrenta descrença: um deputado do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) ter-lhe-á dito que não sabia se eles tinham sido presos.

“Nós temos testemunhos vivos aqui no Fogo que viram que fomos presos e injustamente”, disse.

Miguel Lopes Araújo, irmão de Orlando, tinha 15 anos quando foi preso no Fogo, em 1974.

Trabalhava nas obras públicas do Estado e era fiscal do mercado municipal quando militares chegaram, de súbito, colocaram-no numa viatura e levaram-no para a prisão, sem lhe explicarem o motivo: “Não fiz nada”, contou à Lusa.

Passou um mês e 27 dias preso no Fogo e cerca de sete meses no Tarrafal.

Eram filhos de uma família pobre, com o pai já falecido – Miguel, por exemplo, tinha estudado apenas até à segunda classe.

Disse que não cometeu qualquer crime e que a aproximação à UPICV resultou sobretudo da curiosidade de um jovem em perceber o que o movimento fazia.

“Eu não fui torturado, mas o meu irmão mais velho e outros colegas foram maltratados”, afirmou.

Miguel afirmou que foi libertado depois da independência, sem saber por que razão tinha sido preso.

“Era o partido único, ninguém tinha voz para falar nada. Quem falava, ia à prisão”, afirmou, acrescentando que considera necessário algum reconhecimento.

Familiares de 15 dos 58 presos políticos no Tarrafal, entre dezembro de 1974 e julho de 1975, enviaram uma carta à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), ao Governo e à Presidência cabo-verdiana em que pedem o reconhecimento e inclusão “da memória, testemunhos e identificação dos presos” no atual Museu da Resistência.

“Não se pretende reescrever a história nem diminuir a relevância das anteriores fases do Campo do Tarrafal”, nomeadamente enquanto “lugar de memória da repressão colonial e da resistência antifascista”, mas sim que “a história seja contada por inteiro”, lê-se no documento, enviado em junho e tornado público este mês.

O Estado cabo-verdiano atribuiu pensões aos combatentes da liberdade da Pátria, incluindo antigos presos políticos, ao abrigo do estatuto aprovado em 2014.

A lei considera combatente da liberdade da Pátria quem tenha militado de forma ativa e organizada pela independência até 24 de abril de 1974 e considera antigo preso político quem tenha sido preso pelas autoridades coloniais durante e em prol da luta pela independência.

Fonte: Expresso das Ilhas // Redação tIver

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