CARDEAL ARLINDO FURTADO EXALTA NORMALIDADE ENTRE IGREJA E ESTADO

 As relações entre a Igreja e o Estado em Cabo Verde vivem actualmente “um momento de normalidade positiva”, marcadas pela colaboração institucional, declarou hoje o cardeal Dom Arlindo Furtado em entrevista exclusiva à Inforpress.

O bispo cessante da Diocese de Santiago admitiu que há um reconhecimento mútuo dos papéis de cada um, ou seja, do Estado e da Igreja, sublinhando a superação de um passado de “alguma desconfiança recíproca”.

Para Dom Arlindo Furtado, hoje há uma consciência mais clara de que, apesar das diferenças entre a Igreja e as estruturas do Estado, ambas trabalham para um objectivo comum que é o bem do povo cabo-verdiano. 

“Cada um no seu âmbito, mas todos ao serviço da mesma nação”, vincou.

Essa aproximação foi reforçada nos últimos anos por experiências conjuntas no seio da diáspora, no quadro do decénio de preparação jubilar, com iniciativas realizadas nos Estados Unidos e em vários países da Europa. 

A diáspora cabo-verdiana foi apontada pelo prelado como um exemplo do papel mobilizador da Igreja, funcionando como espaço de reencontro nacional. 

“Quando os emigrantes se reúnem, não é apenas para serviços religiosos, mas como nação, com cultura, língua e uma saudade comum que reforça a identidade cabo-verdiana”, sublinhou.

Para Arlindo Furtado, hoje há uma consciência maior, mais ampla, tanto entre políticos e membros da Igreja, que todos estão ao serviço da única nação, “a nossa querida nação de Cabo Verde”.

Esses encontros, acrescentou, permitiram a representantes do Governo e da Igreja perceberem, no terreno, o impacto da cooperação entre as duas instituições junto das comunidades emigradas.

Instado sobre o papel da Igreja cabo-verdiana no plano internacional, respondeu que esta instituição tem ganhado reconhecimento internacional, sobretudo pelo facto de se preparar para celebrar 500 anos da criação da Diocese de Santiago, um “marco considerado histórico no contexto africano”. 

“Nós somos uma Igreja pequenina, mas aqueles que, por alguma razão, chegaram a conhecer a história de Cabo Verde, começam a admirar-nos, sobretudo sabendo que nós vamos em breve celebrar 500 anos da criação da nossa Diocese”, vincou o prelado, acrescentando que o país vai comemorar cinco séculos de uma “Igreja estruturada e madura”.

“Este percurso tem despertado admiração em diversos países, onde comunidades cabo-verdianas têm desempenhado um papel activo e, muitas vezes, de liderança nas paróquias locais”, considerou o bispo cessante da Diocese de Santiago.

Segundo a mesma fonte, os emigrantes cabo-verdianos são hoje “fonte de vida” em várias comunidades religiosas no exterior, contribuindo para revitalizar estruturas eclesiais e reforçar laços de solidariedade.

Para Dom Arlindo, os emigrantes cabo-verdianos são um orgulho para o país na divulgação da fé nas dioceses onde residem.

“A igreja de Cabo Verde é muito bem-vista lá fora, e por isso não temos grandes razões para reclamarmos. Damos graças a Deus, porque o que levam daqui não fica no aeroporto”, congratulou-se o prelado, referindo-se aos emigrantes

Entre os principais legados recentes da Igreja em Cabo Verde, o cardeal apontou a criação da Escola Universitária Católica, a implementação da Fazenda da Esperança [projecto de reinserção social para pessoas com dependências do álcool e outras drogas] e a assinatura do acordo jurídico com o Estado, considerado estruturante para o futuro das relações institucionais.

Instado sobre que conselhos gostaria de dar ao seu sucessor, que toma posse no próximo dia 02 de Maio, o bispo cessante disse que Dom Teodoro Tavares tem uma “grande experiência e capacidade de diálogo”, manifestando, no entanto, disponibilidade para colaborar sempre que solicitado, mas ressalta a importância de uma liderança autónoma e ajustada aos desafios actuais.

“Ele [Dom Teodoro] tem uma grande experiência de bispo, é um homem bom, um homem que escuta, que dialoga”, evidenciou Dom Arlindo, que se mostra disponível para a “partilha de alguma opinião” com o seu sucessor, caso este o tenha solicitado, “sabendo se será útil ou não”

Quanto ao seu futuro, Dom Arlindo tenciona adoptar um ritmo de vida mais tranquilo, dedicado à oração, reflexão pessoal e aprofundamento cultural, sem deixar de prestar apoio pontual à missão pastoral.

“Eu tive sempre uma vida muito intensa, desde criança tive uma vida muito intensa. Agora vou levar uma vida mais tranquila”, espera o bispo cessante, que promete dedicar-se não só a mais leituras para fortificar a sua cultura, mas também à família de origem em relação à qual teve pouco tempo para dar atenção.

Dom Arlindo Furtado nasceu a 15 de Novembro de 1949, na localidade de Santa Catarina, na ilha de Santiago, Cabo Verde. 

Entrou no seminário aos 13 anos de idade e prosseguiu a sua formação sacerdotal em Cabo Verde e em Portugal, tendo sido ordenado sacerdote em 1976.

Ao longo do seu percurso, desempenhou várias funções pastorais e formativas, destacando-se como pároco, professor e reitor do Seminário Maior de São José, na Praia. 

Foi também uma figura activa na formação do clero e na organização da Igreja em Cabo Verde.

Em 2009, foi nomeado primeiro bispo da Diocese de Mindelo, criada nesse mesmo ano, onde teve um papel fundamental na estruturação e consolidação da nova diocese. 

Em 2011, foi transferido para a Diocese de Santiago, tornando-se bispo da maior circunscrição eclesiástica do país.

Em 2015, foi elevado a cardeal pelo Papa Francisco, tornando-se o primeiro cabo-verdiano a integrar o Colégio Cardinalício e a participar na eleição de um Papa.

Ao longo do seu ministério, destacou-se pela proximidade aos fiéis, pela promoção de novas paróquias e pelo reforço da presença da Igreja na sociedade cabo-verdiana. 

Em 2026, cessou funções como bispo da Diocese de Santiago, deixando um legado marcado pelo crescimento pastoral e institucional da Igreja no país.

Fonte: Inforpress // Redação TIver

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