DIÁSPORA/PORTUGAL: CABO-VERDIANA MARIA BORGES TEME PERDER TUDO EM OPERAÇÃO NO ANTIGO BAIRRO DE SANTA FILOMENA

Maria Borges regressou apressadamente ao antigo bairro de Santa Filomena, na Amadora, depois de ser avisada de que máquinas da câmara municipal estavam a avançar sobre a zona onde viveu durante décadas e onde ainda cultivava uma pequena horta.

Segundo a Lusa, Maria deixou o bairro aos 35 anos, mas manteve ali um espaço de cultivo para consumo próprio, com cana-de-açúcar, feijão, milho e couve, além de alguns utensílios guardados numa pequena estrutura improvisada.

“Foi tudo destruído… como é que vou tirar?”, perguntava, em lágrimas, enquanto apontava para o monte de entulho onde ficaram soterrados panelas de pressão e outros bens que dizia pretender enviar para Cabo Verde.

A Agência Lusa acrescenta que a mulher cabo-verdiana, que agora vive numa “casinha” no Casal de São Brás, também no concelho da Amadora, diz ter sido surpreendida pela operação em curso e lamenta não ter sido avisada.

“Está tudo por debaixo dessa coisa, dentro de um armário, está lá tudo”, repetia à Lusa, visivelmente abalada.

No terreno, duas retroescavadoras avançavam durante a manhã na desmatação de terrenos municipais na zona da Estrada Militar, antiga área do bairro de Santa Filomena, operação acompanhada pela polícia municipal.

Os trabalhos, segundo a Câmara Municipal da Amadora, citada pela Lusa, visam “a limpeza, desmatação e requalificação dos terrenos municipais anteriormente ocupados pelo Bairro de Santa Filomena”, sublinhando a autarquia que a intervenção se destina a garantir “salubridade e segurança”.

Contudo, os moradores contestam a falta de informação prévia.

“Não colocaram nenhum aviso, nenhuma informação, e as pessoas foram apanhadas de surpresa”, afirmou a advogada Catarina Morais, que acompanha alguns dos residentes afetados.

Segundo a jurista, pelo menos dois moradores terão perdido habitações construídas de forma precária junto a hortas, situação que diz ilustrar a incerteza sobre o que é ou não considerado construção habitacional.

A Câmara da Amadora, liderada pelo PS, refere que não existem “habitações licenciadas” nas estruturas agora removidas e enquadra a operação como uma intervenção de limpeza de terrenos municipais.

Enquanto as máquinas avançavam, escreve a Lusa, Maria Borges tentava recuperar o que restava da sua horta, mas pouco conseguiu salvar.

“Já não há nada”, resignou-se, olhando para o espaço onde diz ter deixado parte da sua vida.

Fonte: Inforpress // Redação Tiver

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